Resiliência

Nas últimas décadas aumentou a preocupação das políticas sociais com a marginalidade e com os indivíduos ou grupos em situação de exclusão social, sobretudo em risco sócio-económico. As crianças em desvantagem social ou circunstâncias de privação têm sido consideradas em risco de desenvolvimento desajustado a vários níveis, como da aprendizagem e de perturbação do comportamento, mostrando mais problemas, em adultos, ao nível profissional e da saúde em geral.

No dia 25 de Fevereiro deste ano, os meios de comunicação social divulgaram os dados de um relatório da União Europeia: uma em cada cinco crianças portuguesas encontra-se em situação de pobreza. Portugal está entre os oito países da UE com maior índice de pobreza. É perante este e outros dados que se evidencia a relevância do estudo de conhecimentos teóricos que apoiem práticas e respostas que ampliem as possibilidades do bem-estar e ajustamento dos indivíduos e sociedades, em detrimento do sofrimento físico e psíquico. Este processo de encontro de respostas positivas do indivíduo perante a adversidade intitula-se de resiliência.

O modelo explicativo baseado apenas no risco e vulnerabilidade mostrou-se insuficiente na previsão do comportamento e desenvolvimento da criança e adolescente. De acordo com evidências empíricas, uma psicopatologia manifesta na primeira infância não prediz necessariamente uma inadaptação posterior na idade adulta. Neste contexto, começou a reconhecer-se que o comportamento face à adversidade, dependeria, também, de outros factores, como os de protecção.

A resiliência é entendida como um processo dinâmico que depende das variações temporais da interacção entre o desenvolvimento individual e o contexto social experienciados. É na dinâmica de interacção entre todos os factores e mecanismos, em cada momento, da intensidade e persistência destas forças, que se compreende as possibilidades que o indivíduo tem de se ajustar. Assim, ao longo de todo o processo de desenvolvimento o indivíduo pode ter oportunidades de crescimento.

Se o funcionamento resiliente se pode manifestar perante a exposição à ameaça ou trauma, também será verdade que essa possibilidade dependerá dos equilíbrios anteriormente encontrados. À medida que os processos resilientes se desenvolvem, aumenta a possibilidade de generalização às esferas da vida do indivíduo e da sua continuidade ao longo do tempo.
Assim, a arte de navegar, nomeadamente, da criança, deve poder contar com o desenvolvimento de mecanismos como a autonomia, a auto-estima e a percepção de auto-eficácia, que favorecem a utilização das capacidades e o crescimento pessoal. Aspectos sociais e relacionais como a capacidade de desenvolver relações empáticas com os outros ou de suscitar respostas positivas nos outros, parecem ser outros mecanismos relevantes para a adaptação psicológica e para manter a esperança da criança, da sua capacidade de transformação do mundo.

Os factores familiares serão também centrais neste processo de adaptação. Alguns autores enfatizam o valor das primeiras experiências relacionais precoces como primordiais para o desenvolvimento de uma vinculação segura que permitia o processo resiliente e outros referem que as vinculações estabelecidas estão em constante actualização e interacção com o meio ambiente.

De qualquer modo, grande parte das situações de vulnerabilidade de vivência precoce de situações traumáticas podem ser compensadas com uma mudança do contexto de interacção, considerando-se a presença de adultos que inspiram confiança e segurança para o futuro um importante factor de resiliência.

Neste sentido, é necessário incentivar e mobilizar contextos favoráveis ao desenvolvimento, que se devem centrar nas potencialidades das comunidades, famílias e indivíduos, principalmente, com o objectivo de contribuir para o desenvolvimento infantil e redireccionar o desenvolvimento em contextos de adversidade para o caminho da adaptabilidade.

Melanie Dinis
(psicóloga clínica)